Assino no Feedly um blog/tumblr chamado Literary Mothers, uma coleção de pequenos ensaios sobre escritoras que influenciaram a vida de leitores. São textos curtos, recheados de sensibilidade e bem delicinhas de ler. Dentre os ensaios mais recentes, Caledonia Kearns escreve sobre Nora Ephron, Cora Currier escreve sobre Elizabeth Bishop, e Angela Jackson-Brown escreve sobre Maya Angelou. O blog tem chamada aberta para submissão. Penso que se fosse eu a escrever sobre uma mãe literária, escreveria sobre Virginia Woolf—existe maternidade literária mais clichê que essa?, tô cheia de irmãs e irmãos dessa mãe. Mas é que Woolf foi divisor de águas & farol em tempestade & abrigo na minha vida mesmo. O livro culpado desse marco foi Mrs. Dalloway, lido pela primeira vez no meio da adolescência, e relido incontáveis vezes ao longo dos anos tanto em português quanto em inglês. Dali para obsessões seguintes com A Room Of One’s Own e Orlando foi um pulo. Virginia Woolf é mãe que me fornece alimento inesgotável, inquietudes nutritivas, e conforto incondicional.

Mães literárias têm desse abraço infinito.

“Quando eu falo para as pessoas que os livros de Dr. Angelou salvaram minha vida, eu não estou exagerando,” diz Jackson-Brown. “Naquele verão, minha inocência foi arrancada de mim, e ninguém menos que Dr. Angelou tinha as palavras para expressar tudo que eu estava sentindo: ‘Eu poderia contar para ela agora? A dor horrível me assegurava que eu não poderia. O que ele fez comigo, e o que eu permiti, deve ter sido muito mau se Deus já havia deixado que me machucasse tanto’ (I Know Why The Caged Bird Sings, 1970). ‘Como ela sabia?’ meu eu de onze anos de idade se perguntava. Como ela sabia que eu também me sentia como um pássaro engaiolado? Como ela sabia que eu também não podia contar a ninguém? E como ela sabia que eu também me sentia abandonada pelo Deus celeste que deveria proteger jovens meninas doces e inocentes como ela e eu?”

E as mães dessas mães?

Penso na mãe de Virginia Woolf, que ninguém menciona, ninguém comenta, ninguém dedica sequer uma página na Wikipedia.

No artigo The Day Virginia Woolf Brought Her Mom Back To Life, Christopher Frizzelle escreve:

“Woolf foi levada até o quarto onde o cadáver de sua mãe estava na cama. Beijar seu rosto ‘era como beijar ferro gelado’, Woolf escreve. ‘Sempre que eu toco ferro gelado, a sensação volta—a sensação do rosto de minha mãe, gelado como ferro, e granulado. Posteriormente, Woolf estava ‘obcecada’ com sua mãe. ‘Até os meus quarenta anos’—até ela ter escrito To the Lighthouse—‘a presença de minha mãe me obcecava. Eu podia ouvir sua voz, vê-la, imaginar o que ela faria ou diria enquanto eu me ocupava das tarefas diárias. Ela era uma das presenças invisíveis que possuíam papel tão importante em cada vida.”

O texto fala sobre a mãe de Virginia Woolf, Julia, e sobre a personagem Mrs. Ramsay do livro To the Lighthouse; tanto Julia quanto Mrs. Ramsay sofreram mortes repentinas. A de Mrs. Ramsay é narrada entre colchetes numa linha abrupta que deixa a gente sem chão no meio da história.

“Ela me deixou literalmente desorientado com tristeza,” diz Christopher, “e ela o fez retendo a razão, da maneira que a própria realidade retém a razão.”

PS.: Falando em mães, uns dez dias atrás postei um texto-quebra-cabeça-incompleto sobre elas no meu blog principal: tanta sombra, tanta luz, tanta lama, tanta cruz.

Log: 21/05/2015. 11:34:53-14:29.